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Vivemos apaixonados pelas bactérias do solo e indiferentes à claridade solar

“Só o carinho e a dedicação dos Espíritos Superiores poderá corrigir o enrijecimento e a impermeabilidade dos homens”.
– Fernando de Lacerda[1]

Bombas explodindo no Oriente Médio; guerras totalmente evitáveis em todas as latitudes, fundamentalismos e discriminações execráveis!…  Dois milênios se passaram desde que “a Grande Luz brilhou nas terras de Zabulon e Naftali”.[2]   Sem embargo, o ser humano ainda teima em permanecer apartado das saudáveis diretrizes cristãs, inclusive os que se autointitulam cristãos.

A humanidade assemelha-se a uma imensa e negra floresta onde a neblina do egoísmo e a escuridão da indiferença não permitem a penetração dos clarões da Boa-Nova.   Assim, a Providência Divina não possui alternativa senão permitir que a dor abra as necessárias clareiras na selva humana, a fim de resgatar de suas profundezas as ovelhas tresmalhadas.  Essa teimosia do homem aliada à lei de causa e efeito explicam os acidentes e hecatombes no mundo que nos estarrecem e provocam dores acerbas.  Mas, como assevera a nobre Mentora Joanna de Ângelis, “(…) ninguém tem o destino do sofrimento. Ele é o resultado da ação negativa, jamais a causa”.

Voltando através dos canais abendiçoados da mediunidade de Francisco Cândido Xavier, Fernando de Lacerda expõe sua perplexidade ante o quadro da indiferença humana na obra citada em epígrafe: “(…) quando ainda encarnado, tive a felicidade de transmitir aos meus contemporâneos as notícias de vários pensadores e literatos redivivos, incorporando-as ao Espiritismo luso-brasileiro, qual o telegrafista postado à ponta do fio estendido entre os dois mundos; entretanto, guardo ainda bem vivas as marcas do sarcasmo e da perseguição que o serviço me valeu, por parte de muitas personalidades importantes, já agora recambiadas para cá, onde não mais se dispõem ao mau gosto de escarnecer da verdade. Realmente não é tarefa fácil entregar certas mensagens a destinatários que se voltam contra elas. Por mais que se identifique o portador, através de palavras e atitudes a lhe positivarem a idoneidade moral, há sempre recursos multiplicados para evasivas.

Se a tarefa mediúnica representasse um manancial de ouro e de prazeres imediatos no currículo da carne, acredito que o povo se congregaria em massa, ao ruído de foguetes e ao som festivo de filarmônicas para recebê-la. O emissário da realidade, porém, não dispõe senão de palavras e de emoções para distribuir, apelando para realizações e louros, que quase toda a gente considera remotos ou inaceitáveis.

Raríssimas pessoas admitem a medicina preventiva. A maioria espera que a doença lhe desordene os nervos ou lhe apodreça a carne para se resolver, pondo a boca no mundo, a procurar clínicos ou cirurgiões. Pouquíssimos na atividade usual da Terra se inclinam ao socorro da medicação religiosa. Detidos temporariamente nas ilusões do império celular, que se desmorona no sepulcro, passam por aí distraídos, no que tange aos interesses do Espírito Eterno.

Na morte, sim! Exasperam-se e choram até à pros­tração, lastimando-se, contudo, algo tarde… Não porque alguma vez lhes faltasse — como a ninguém falta — a Compaixão Divina: a paciência do Pai é inexaurível. É que se postergam, nas circunstâncias da luta terrena e nos quadros da parentela consanguínea, as valiosas oportunidades de mais amplo serviço; e o ensejo de aprender, corrigir, restaurar e auxiliar é indefinidamente adiado…   Indispensável se torna aguardar outra época, outros meios e reajustes…

O chamado “homem prático” ainda se assemelha, em diversas tendências, aos seres rudimentares do mundo, vivamente apaixonados pelas bactérias do solo e indiferentes à claridade solar.

O que me estarrece não é o sacrifício de um homem pela melhoria dos semelhantes: é a indiferença das criaturas pensantes e responsáveis, diante da ternura e da renunciação dos amigos de Além-Mundo. O enrijecimento e a impermeabilidade das inteligências encarnadas, com reduzidas exceções, só os podem corrigir a dedicação e o carinho dos Espíritos Superiores.

Muitas vezes aí observei a deplorável paga do bem pela ingratidão, a revolta e a vaidade a troco da humildade e da ternura. Que sempre houve muita gente preocupada em ouvir os desencarnados não padece dúvida; mas pessoas real­mente interessadas na verdade jamais encontrei, exceção feita de alguns raros amigos, considerados bonzos e loucos, quanto eu mesmo o fui.

As Entidades que se comunicavam por meu intermédio eram admiradas, ou suportadas, sempre que lisonjeassem, confortassem ou distraíssem; mas quando tangiam as cordas da realidade no mágico instrumento da palavra, convertiam-se em demônios de mistificação ou de inconveniência.

Entre máscaras e almas, vivi perplexo e atenazado por interrogações e decepções contundentes. Daí, talvez, a exaustão que me colheu, de súbito, em plena luta. Meu cérebro era uma trincheira sob contínuas investidas. De obstáculo em obstáculo, caí sobre as pedras do meu caminho, minado por intraduzível esgotamento.

Alguns companheiros verificaram, em meu drama doloroso na casa de saúde, a falência de minhas faculdades, acreditando-me desprezado pelos amigos espirituais. Na verdade, porém, os mensageiros da luz não me haviam abandonado. Quando se inutiliza o filamento frágil de uma lâmpada, assim fazendo o aposento às escuras, isso não quer dizer que a usina geradora de força houvesse deixado de existir. Os vexilários da causa de Jesus eram excessivamente bondosos para não desculparem a insignificância e a pobreza do amigo que lhes acompanhava as pegadas na romagem difícil. Ainda que me fosse dado cumprir todos os deveres que a mediunidade me indicava ou impunha, sentir-me-ia efetivamente pequenino e derrotado perante a magnitude da ideia que me cabia servir.

(…) Até que o avanço moral do Planeta possibilite equações definitivas da ciência, no terreno da sobrevivência e da intervenção das almas desencarnadas no círculo terrestre, o médium será a “cabeça de ponte” do mundo espiritual entre os homens, solicitando compreensão, solidariedade e incentivo para funcionar com a eficiência precisa.

Deus dá a semente e o clima, a água e o solo; quem dirige, porém, o arado e sustenta a lavoura, esse é o próprio homem, herdeiro e usufrutuário dos benefícios da Terra”.

Assim, quando a humanidade se debruçar sobre o solo sáfaro da alma esvurmando dali a empola má da indiferença e reconhecendo – humildemente – a solicitude da Paternidade Divina para com todos os seres viventes, bem como a destinação gloriosa que Ele nos acena, em especial através do conhecimento espírita, a pedagogia da dor não será mais utilizada pelas leis da vida, já que entrará em vigor a lei maior que é a do Amor, apregoada e exemplificada pelo Meigo Rabi Galileu.

[1] – XAVIER, Francisco Cândido.  Falando à Terra. 3.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1974,  cap.: “Voltando”.

[2] – Mateus, 4:15 e 16.

Rogério Coelho

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